O binômio ciência–treinamento sob a perspectiva de um Treinador

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Alexandre Magno-França, Ph. D.
Diretor de Operações, Union Internationale de Pentathlon Moderne | Mônaco
Pesquisador Associado, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro | Rio de Janeiro

O BINÔMIO CIÊNCIA–TREINAMENTO SOB A PERSPECTIVA DE UM TREINADOR

“Frequentemente, treinadores veem cientistas como seres fora da realidade do esporte e competições, mais interessados nas estatísticas do que nos resultados do desempenho. Já os cientistas enxergam os treinadores como Neandertais, que não entendem o corpo humano nem os princípios da ciência. Essa falta de respeito mútuo e de valor é um grande impedimento para uma colaboração bem-sucedida e produtiva.” (CALLAN; DIEFFENBACH, 2012, p.9).

A importância do esporte de alto rendimento tem crescido exponencialmente nos últimos anos. A magia do desafio e do movimento, bem como a beleza e a plasticidade dos atletas ecoam diante do enorme volume de recursos públicos e privados investidos nessas atividades. A superexposição à mídia dos atores e suas modalidades aproxima-os das pessoas indistintamente de país, credo ou condição social.

Mesmo estando presente há muitos anos em nosso cenário, a ciência do esporte sempre careceu de maior integração ao quotidiano desportivo brasileiro. Países com maior tradição esportiva têm demonstrado essa preocupação ao investir em programas que promovem a comunicação simples, ágil e direta dos laboratórios com o campo desportivo (STONE et al, 2005, p.21). A distância existente entre cientistas e treinadores no Brasil dificulta o uso de descobertas e novas tecnologias avançadas. É sobre essa questão, tornada um grande diferencial para a obtenção de resultados expressivos no esporte de alto-rendimento, que tratará o presente artigo.

A busca da modernização de processos e conquista de melhores resultados operacionais ultrapassou as fronteiras do mundo corporativo e constitui hoje princípio basilar da gestão esportiva de clubes, federações e comitês olímpicos. O aporte de percentuais significativos dos orçamentos dessas entidades em serviços de suporte científico traduz a importância da procura por um diferencial na excelência da performance.

A Alemanha, por intermédio do Institut für Angewandte Trainingswissenchaft (IAT), busca que seus cientistas trabalhem como consultores junto aos treinadores e atletas. O objetivo do Instituto, em última análise, é o de capacitar técnicos e atletas para usar as ferramentas de controle de treinamento, em colaboração ativa com os cientistas do esporte. Por intermédio de uma gestão ampla, envolvendo não só a performance do atleta, mas também o uso da tecnologia para o aperfeiçoamento de equipamentos, o IAT é a maior instituição mundial de pesquisa nessa área (INSTITUT FÜR ANGRWANDTE TRAININGSWISSENCHAFT, 2013).

O English Institute of Sports (EIS), órgão de apoio científico da British Olympic Association, é demonstra sua expertise revelando que 86% dos medalhistas britânicos nos Jogos de Londres foram apoiados regularmente por este Instituto. O número de medalhas conquistadas nas três edições olímpicas seguintes cresceu 109% desde a criação do EIS, em 2002 (ENGLISH INSTITUTE OF SPORTS, 2012).

O Australian Institute of Sport, ramo técnico-científico da Australian Sport Comission, responsável por conduzir a pesquisa científica em prol da performance esportiva, assessorou 94% dos atletas que conquistaram as 35 medalhas australianas nos Jogos de Londres (AUSTRALIAN SPORT COMISSION, 2012).

Contudo, a disponibilização de métodos científicos avançados e tecnologia de ponta por si só não garantem avanços ou vantagens no planejamento e controle do treinamento esportivo. O fator-chave para que potencial científico e tecnológico seja aproveitado e potencializado é a educação dos treinadores e comissão técnica. É por intermédio de ações educacionais voltadas para o público acima mencionado que é possível conseguir a aproximação de treinadores e cientistas.

Do lado dos treinadores existe o medo da exposição de seu método de trabalho a pessoas que não conhecem a rotina de campo, tradicionalmente composta por grande dose de empirismo. Do lado dos cientistas urge a necessidade de que entendam que podem se adaptar e moldar à rotina dos treinadores. O objetivo maior para esses profissionais será trazer para o campo a aplicação prática das interpretações dos testes e medições realizadas.

Para que isso aconteça é fundamental que os cientistas estejam ambientados e envolvidos in loco com o cotidiano de treinamento dos atletas apoiados. Já para os treinadores, quanto mais critérios objetivos e mensuráveis forem apresentados para a avaliação e controle de cargas do treino – vale dizer mais informações práticas e menos fundamentação teoricamente – mais próximos estaremos de uma programação de alto nível. Trata-se de um problema de comunicação crônico que pode ser vencido com a busca de uma linguagem comum para ambas as partes.

Com o envolvimento de treinadores capacitados e estimulados, torna-se mais fácil convencer e estimular atletas a realmente tirarem o máximo de proveito das potencialidades da ciência do esporte. A conscientização individual dos desportistas sobre os detalhes de sua rotina de alimentação, descanso, ações preventivas para a prevenção de lesões e conhecimento dos critérios de avaliação do treinamento torna o processo mais simples e envolvente. Ter conhecimento do que efetivamente está se medindo e o porquê de cada uma das atividades de suporte é essencial para o crescimento e desenvolvimento global do atleta.

Vencidos os problemas de comunicação é importante agora entender a atuação do cientista dentro da rotina de treinamento e competições. Para tanto, propomos a reposta à uma questão: que atributos são desejáveis para a realização de um suporte científico de excelência? Destacaremos aqui cinco pontos principais que, dentro da nossa experiência, devem nortear a atuação de uma equipe científica: confiabilidade, objetividade, temporalidade, discrição e difusão.

Figura 1. Os cinco atributos para a excelência do suporte científico no esporte de alto-rendimento.

A confiabilidade está atrelada ao grau de credibilidade depositado por treinadores e atletas na equipe de suporte. A previsão, o planejamento e o conhecimento da modalidade são essenciais para quem presta o apoio, sendo essas pessoas tão mais intrusas quanto menor for sua habilidade para lidar com esses aspectos. Fazer com que os consultores se sintam parte do time e que o seu trabalho realmente encontra eco no seio de atletas e treinadores é essencial.

A objetividade diz respeito à linguagem utilizada pela equipe de apoio, permitindo a fácil e imediata compreensão dos objetivos a serem atingidos. É importante que uma linguagem próxima aos jargões desportivos seja a eleita, de modo a eliminar hiatos de relacionamento entre pessoas que convivam em ambientes de trabalho completamente diversos.

A temporalidade está ligada à velocidade com que os resultados dos diversos testes e experimentos chegam à comissão técnica e atletas. A frustração pelo retardo na entrega de relatórios, essenciais para a promoção de mudanças e adaptações ao treinamento, compromete o relacionamento apoiador x apoiado. Por outro lado, a pronta resposta de atletas e treinadores em seguirem as recomendações propostas retroalimenta o processo.

A discrição do apoio, representada pelo entendimento pela equipe de apoio que a ciência é uma dentre outras coadjuvantes do segmento esportivo, torna-se primaz. Compreender que o papel a ser desempenhado é de assessoramento torna-se um grande passo para que o processo flua de maneira eficiente. Já a comissão técnica apoiada deve primar pela clareza e transparência dos métodos de treinamento, permitindo aos consultores uma análise profunda dos problemas encontrados.

Como última propriedade, a difusão de informações faz-se necessária em duas vertentes: externa e interna. Internamente a comunicação deve ser hierarquizada, de modo que o atleta só receba ou preste informações por intermédio de uma única pessoa, elencada em sua Comissão Técnica. Pelo lado do Comitê e no mesmo modelo, apenas uma pessoa deverá estabelecer a ligação entre as demandas do atleta e os diversos profissionais prestadores de serviço. Externamente, é fundamental que haja publicidade das melhores práticas, dos achados e possibilidades de réplica dos eventos conduzidos pela ciência, de modo a incentivar e estimular a comunidade esportiva a buscar esse novo horizonte em suas rotinas.

Continuaremos em próximas postagens a explorar a visão adquirida durante quatro ciclos olímpicos sobre a relação entre cientistas e treinadores, para o aprimoramento do conhecimento e das ações em campo.

REFERÊNCIAS:

  1. AUSTRALIAN SPORT COMISSION. Annual Report 2011-2012. IAS, 2012. 31p.
  2. CALLAN, S.; DIEFFENBACH, K. Building Better Performance through applied science: how NGBs and universities can work together. Olympic Coach Magazine, v.23, n.1, p. 9-13. 2012.
  3. ENGLISH INSTITUTE OF SPORT. Games Time Review. EIS, 2012. 47p.
  4. INSTITUT ANGEWANDTE TRAININGSWISSENCHAFT. Organisationsstruktur des IAT. Disponível em: www.iat.uni-leipzig.de. Acesso em: 27 abril 2013.
  5. STONE, M.; STONE, E.; SANDS, B. Downfall of sport science in the United States. Olympic Coach Magazine, v.17, n.1, p. 21-24, 2005.

133 Comentários

  1. LesEstary disse:

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