Quais parâmetros você utiliza para monitorar a qualidade do sono dos seus atletas?

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20 de novembro de 2018

 

A qualidade do sono é um componente essencial para a recuperação do atleta. No entanto, uma melhor compreensão dos parâmetros a serem aplicados para quantificar adequadamente a qualidade do sono em atletas de esportes coletivo não estava disponível na literatura científica. Sendo assim, realizamos uma revisão sistemática e meta-análise para identificar quais parâmetros utilizar para o monitoramento da qualidade do sono em atletas.

Este estudo foi conduzido por especialistas de instituições nacionais e internacionais de diferentes áreas (Controle de Carga: USP, LOAD CONTROL, Gabbett Performance Solutions e USQ; Psicobiologia: UNIFESP, UFC, UFMG, Aspetar e QUT; Fisiologia: SPFC; Treinamento de Força: USP e NAR) e aceito na revista científica BMJ Open Sport & Exercise Medicine (1). Os principais achados foram:

  • 30 instrumentos de medição foram utilizados para monitorar a qualidade do sono em atletas de esportes coletivos. Os mais prevalentes foram: 1) Actigrafia; 2) Escala de Likert (sem referência); 3) Escala de Likert (baseada em Hooper); 4) Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh; 5) Escala de sonolência de Epworth e RESTQ-Sport; 6) Questionário de Jet-lag de Liverpool e PROMIS; 7) Polissonografia;

  • 10 parâmetros de qualidade do sono foram identificados pela meta-análise; 4 inferidos por actigrafia (eficiência do sono, latência do sono, número de despertares e duração toral do número de despertares) e outros 6 parâmetros de qualidade obtidos de questionários e escalas (incluindo Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh [eficiência do sono], Escala de Likert [Hooper], Escala Likert [sem referência], Questionário de Jet-lag de Liverpool, Questionário de Jet-lag de Liverpool [classificação do sono] e, RESTQ-Sport [qualidade do sono]);

  • Os parâmetros mais adequados para monitorar a qualidade do sono devem ter um nível de instabilidade da medida (coeficiente de variação) de pequeno a moderado e um nível de sensibilidade da medida (tamanho de efeito) de moderado a grande.

 

Estes achados fundamentam a atuação de Treinadores, Preparadores Físicos, Fisiologistas e demais profissionais que buscam conhecer a qualidade do sono visando uma abordagem integral de monitoramento dos seus atletas. Pois, uma baixa qualidade do sono pode levar ao acúmulo de fadiga, sonolência e mudanças no humor. Além disso, o sono insuficiente tem sido negativamente relacionado ao desempenho físico (por exemplo, redução da velocidade e potência anaeróbica), função neurocognitiva (por exemplo, diminuição da atenção e memória) e saúde física (por exemplo, aumento do risco de doença e lesão).

Uma recomendação para uma boa qualidade do sono aponta para determinantes principais a serem seguidos: eficiência do sono de pelo menos 85% , adormecer em 30 minutos ou menos após deitar-se, acordar não mais do que uma vez por noite, e ter uma duração total do número de despertares de no máximo 20 minutos depois de adormecer inicialmente.

A qualidade do sono recebeu um número crescente de estudos nos últimos anos. Esta pesquisa encontrou 1809 artigos na busca inicial. Após a remoção de artigos duplicados e a aplicação dos critérios de inclusão, 77 estudos, publicados entre 1993 e 2017, foram incluídos nesta revisão sistemática, sendo que 56% dos artigos foram publicados nos últimos 3 anos. Além disso, revisões sistemáticas anteriores ao nosso estudo já sugeriram que: os processos fisiológicos e psicológicos que ocorrem durante o sono são considerados críticos para a recuperação ideal; os efeitos prejudiciais do distúrbio do sono nos mecanismos de fadiga pós-jogo incluem retardo na ressíntese de glicogênio muscular, recuperação retardada do dano muscular induzido pelo jogo e/ou comprometimento do reparo muscular, função cognitiva prejudicada e aumento da fadiga mental. Além disso, estratégias utilizadas para melhorar o sono (higiene do sono) podem ser utilizadas para reduzir a sua interrupção após partidas noturnas e durante dias de recuperação para promover o sono restaurador (2,3,4).

Por outro lado ainda carecemos de avanços científicos e tecnológicos nessa área como: um consenso sobre (i) a definição conceitual dos parâmetros inferidos pela actigrafia, que podemos dizer ser um método não invasivo de monitoramento dos ciclos de repouso-atividade humana (ii) uniformidade nos algoritmos usados para calcular a qualidade do sono (nos dispositivos eletrônicos), e (iii) validação de questionários de sono com atletas de alto rendimento.

Atualmente já é possível a utilização de smartwatches, os chamados relógios inteligentes, para o monitoramento da eficiência do sono. Com o contínuo avanço tecnológico a eficiência e os os demais parâmetros do sono identificados no presente estudos poderão ser obtidos com mais facilidade e confiabilidade das medidas. Os questionários e escalas também foram recomendados para uso na prática profissional. Além de não terem custo para aplicação, agregam a percepção do sujeito para o processo e não são substituídos completamente por parâmetros objetivos, na realidade eles, parâmetros subjetivos e objetivos, se complementam em muitos casos.

O fato é que mais uma vez não encerramos a discussão, mas executamos um passo contundente na busca por respostas nessa área de vital importância para melhora do desempenho e redução do risco de lesão de atletas.

Ah e com Brasileiros na condução deste grande avanço na área de conhecimento: #MadeInBrazil !

REFERÊNCIAS:

  1. Which parameters to use for sleep quality monitoring in team sport athletes? A systematic review and meta-analysis. João Gustavo Claudino1,2; Tim J Gabbett3,4; Helton de Sá Souza5; Mário Simim6; Peter Fowler7,8; Diego de Alcantara Borba9; Marco Melo10; Altamiro Bottino10; Irineu Loturco11; Vânia D’Almeida5; Alberto Carlos Amadio1; Julio Cerca Serrão1; George P. Nassis12. 1University of São Paulo (USP); 2LOAD CONTROL; 3Gabbett Performance Solutions; 4University of Southern Queensland (USQ); 5Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP); 6Universidade Federal do Ceará (UFC); 7Aspetar Orthopaedic and Sports Medicine Hospital; 8Queensland University of Technology; 9Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); 10São Paulo Futebol Clube (SPFC); 11 Núcleo de Alto Rendimento (NAR); 12Independent Researcher, Athens, Greece. BMJ Open Sport & Exercise Medicine.
  2. Fullagar HHK, Duffield R, Skorski S, et al. Sleep and recovery in team sport: current sleep-related issues facing professional team-sport athletes. Int J Sports Physiol Perform 2015;10(8):950-57.
  3. Nédélec M, Halson S, Delecroix B, et al. Sleep hygiene and recovery strategies in elite soccer players. Sports Med 2015;45(11):1547-59.
  4. Nédélec M, Halson S, Abaidia A-E, et al. Stress, sleep and recovery in elite soccer: a critical review of the literature. Sports Med 2015;45(10):1387-400.

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